Augusto dos Anjos

Uma das coisas que pretendo mudar em minha vida é a quantidade de tempo que dedico à leitura. Recentemente reli o livro “Eu e Outras Poesias”, de Augusto dos Anjos, e relembrei os porquês de ele ser um de meus poetas prediletos.

Augusto dos Anjos foi tido em seu tempo como o poeta da estranheza. Mas o que somos nós, humanos, senão animais repletos da mais cativante estranheza?

Leia Augusto com atenção. Não se deixe assustar. Por trás de todo o cientificismo e dos termos biológicos à primeira vista chocantes, está o retrato da alma humana sem eufemismos, com sua beleza crua e agonia inerente. Sentir essa agonia é comum. Mas compreendê-la é para apenas alguns.

Para instigar o seu interesse pelo livro, estão apresentadas a seguir as três poesias que, para mim, são destaque:

BUDISMO MODERNO

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme  este operário das ruínas 
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão  esta pantera 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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