Bacharel há dez anos!

Em 2003 eu concluí o curso de Engenharia de Controle e Automação pela UFMG. Dez anos já se passaram. Na verdade, completarei de fato dez anos de formado apenas em setembro. Mas como este início de ano está repleto de motivos para comemorações, aproveitarei para comemorar também a minha primeira década como Engenheiro. Eu fui orador de minha turma e, para relembrar a minha formatura, deixarei registrado aqui o texto que li na colação de grau.

SOMOS ENGENHEIROS

Somos engenheiros! A sintaxe dessa frase é extremamente simples. A sua semântica, todavia, é extensa, profunda, sinuosa, e deve permear nossas ideias, nossos sentimentos, nossas ações, enfim, deve permear nossos espíritos em cada instante. Devemos não apenas dizer essa frase; devemos senti-la. Sentindo-a, seremos capazes de refletir intensamente sobre toda a sua densidade de significados. É certo que o momento é de comemoração, de lembrança dos bons acontecimentos, do crescimento coletivo e de tudo que nos fez sorrir juntos durante os cinco anos em que compartilhamos sonhos, vitórias, decepções e desilusões. Mas nos devemos despir da hipocrisia e abandonar os eufemismos, para que possamos refletir de uma maneira produtiva e real, e para que a nossa reflexão não seja apenas um conjunto de pensamentos acerca de um universo idealizado.

Reflitamos, inicialmente, sobre o que fomos, o que fizemos, o que passamos e o que compartilhamos durante a nossa graduação. Evidentemente, grandes amizades foram construídas. Todos sabíamos que sempre teríamos a quem recorrer. Mas cada um de nós deve examinar a sua memória e se perguntar: Fui omisso? Fui injusto? Fui irresponsável? Fui individualista? É… Essas perguntas são agressivas! E muitos devem estar questionando a sua pertinência nesse contexto. Para esses, há um argumento insofismável: responder a essas perguntas é algo que faz pensar e toca o ego. E esse toque pode ter dois efeitos: o crescimento como ser humano ou a ilusão da perfeição. E que ninguém mergulhe nessa ilusão, pois apenas crescendo como ser humano se pode chegar a crescer como engenheiro.

Reflitamos agora, lembrando, é claro, do que fomos, sobre o que seremos. Pensemos sempre em toda a sociedade, pois pensar em todos é a maneira mais sensata de pensar em si mesmo. Construamos algo para que não sejamos meros consumidores. Questionemos o medo e a fome, questionemos a guerra, a greve, a engenharia, questionemos a vida… Devemos ter infinitas interrogações na cabeça e no coração e um universo de possibilidades nas mãos. E que saibamos exercitar a solidariedade e a responsabilidade, para que se concretizem apenas as boas possibilidades.

Nunca, eu repito, nunca devemos ser engenheiros apenas pelo dinheiro. Quem pensa apenas nisso não consegue ser sequer um grande vilão, pois perde a virtude do sonho. E tudo o que foi erguido se construiu antes em sonho. Busquemos a sabedoria, para que possamos usar adequadamente o conhecimento que temos. Sejamos amantes do vencer obstáculos, do construir, do realizar, sejamos amantes do amor. Isso traz mais dinheiro do que pensar em dinheiro, e não arranca da alma a paz, a alegria e a satisfação de viver.

Por fim, convém ressaltar que não nos devemos acomodar e dar lugar à passividade, para que não sejamos devorados pela mesmice e pelo ócio. Façamos, tentemos, pensemos. Enriqueçamos nossas biografias. É melhor errar e fracassar do que se acomodar e desperdiçar a oportunidade da existência. E que não sejamos expectadores do mundo, críticos do dia a dia, comentaristas do sucesso alheio, empreendedores e realizadores de coisas fantásticas de mesa de boteco.

Trabalhemos! Trabalhemos muito, mas reservando sempre um tempo para nós mesmos e para os que amamos. Trabalhemos com amor e prazer, sabendo recomeçar, buscando crescer e melhorar, e exercitando a capacidade de enxergar a felicidade nas pequenas coisas da vida. Assim conheceremos profundamente um universo que os passivos e ociosos nunca sequer verão. Isso é ser não apenas um engenheiro, mas um ser humano de sucesso.

E lembrem-se: cada um de nós é mais do que corpo e sexo, é mais do que dinheiro e imagem. Cada um de nós é um milagre e existe para crescer, evoluir e ser feliz. Basta buscarmos a verdade e lutarmos com corpo, alma e coração. Basta percebermos que a felicidade existe e é um conjunto de coisas simples. Fazendo isso, seremos vitoriosos, e não deixaremos que a abstinência de humanidade dessa dimensão estúpida e hedionda se converta em uma verdade absoluta.

É fato que a verdade se apresenta por diversos caminhos, de diferentes e sortidas maneiras. Mas mesmo ela sendo óbvia, só a percebe quem tem alma para senti-la. Em sendo assim, finalizo afirmando: tudo o que foi dito aqui vale não apenas para nós, que somos engenheiros, mas também para cada um que pôde ver, ouvir, sentir e refletir.

 Renato Dourado Maia

6 thoughts on “Bacharel há dez anos!

  1. Ótimo discurso! Parabéns Renato, pelo jeito desde sua graduação você já possuía essa capacidade de nos levar a refletir sobre como devemos pensar e agir, para se tornar um bom engenheiro, um ser humano melhor. E isso faz com que nós tentemos melhorar a cada dia. Parabéns!

    • Petrus, que bom que você gostou do discurso! Ele contém algumas ideias que nós discutíamos nas aulas! O discurso representava o que eu sentia na época e representa, ainda, o que sinto hoje! Ser um bom engenheiro é, antes de mais nada, ser um bom ser humano! Abraços!

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